Domingo, 30 de Abril de 2006
O Pegureiro e o Lobo - Estórias de Castro Laboreiro(2)

  

O Pegureiro e o Lobo,
 
recomendado para as escolas secundárias galegas, em Encontro Cultural Raiano
 
No dia 1 de Abril, teve lugar na Livraria Torga em Ourense , o lançamento do Livro O Pegureiro e o Lobo - Estórias de Castro Laboreiro,  do castrejo Manuel Domingues, o qual serviu de base à realização de um encontro cultural raiano .
 
A sessão contou com a participação do Prof. Isaac Estraviz , apresentador do livro, do Autor, Manuel Domingues, que referiu o contexto que originou o Livro e os seus objectivos, Júlio Medela , investigador de assuntos raianos , Manuel Rivero Perez , sociólogo que abordou o papel do forno comunitário na convivência social raiana .

Américo Rodrigues, do Núcleo de Estudos e Pesquisa dos Montes Laboreiro, apresentou uma panorâmica global da paisagem cultural castreja enquanto José Domingues, igualmente do Núcleo, transmitiu algumas conclusões inéditas resultantes da sua investigação histórica sobre o relacionamento entre a tomada do Castelo de Castro Laboreiro e o Recontro dos Arcos de Valdevez, a partir dos elementos constantes da carta de couto do Mosteiro de Paderne de 16 de Abril de 1141, e que até à data, apesar da sua proximidade geográfica, ainda não foi estabelecida qualquer ligação entre os dois acontecimentos históricos da época da fundação da nacionalidade.

Participou ainda a AGAL , através do seu director Vítor Peres, que também forneceu os meios audiovisuais.
O professor Estraviz começou por situar o Livro no contexto cultural raiano , referindo aspectos da sua vivência com cenas muito semelhantes às descritas no Pegureiro e o Lobo, para significar a proximidade entre as culturas crasteja e galega. Quanto ao Livro salientou o «fantástico aspecto do livro e a excelente qualidade literária, escrito de uma forma lapidar, num português vivo, em parágrafos curtos, com um vocabulário estupendo, fazendo com que não haja nenhum português ou galego que não o entenda».
Num contexto de globalização tentam impingirmos valores e culturas estranhos, nomeadamente americanos, e este livro vem lembrar que é aqui, na zona raiana , que palpita a vida e está a Humanidade, não precisando de importar modelos da América, da Alemanha ou de qualquer outro lugar", continuou o Professor.
"O livro é marcado por dois protagonistas: o Manuel impregnado pelo amor profundo às suas raízes e Castro Laboreiro, que se exprime através das suas gentes, dos cotos e da paisagem, numa linguagem viva que escapa aos dicionaristas, porque de facto o galego e o português não tiveram origem nas cortes palacianas, nem se circunscrevem ao que consta dos dicionários. Muito antes deles já os povos o falavam e foram preservando essa cultura através de regionalismos, muitos dos quais aparecem no livro.

Por tudo isto entendo que este livro deveria estar em todas as escolas galegas do ensino secundário e ser lido por todos os amantes da cultura galega, a começar pelos que aqui se encontram", concluiu Estraviz .

Por seu lado, Júlio Medela , analisou o Livro numa perspectiva da alma raiana . «Ter nas mãos O Pegureiro e o Lobo é o regresso a casa. É o apocalipse revelador do retorno ao idêntico. É um renascimento espiritual» disse. O livro demonstra e faz fé da influência da paisagem na alma raiana , mais entranhada na natureza do que na sociedade, no cosmológico mais do que no social", continuou Medela .

Desenvolvendo a sua explanação em redor de um sentimento próprio e dum espírito totémico que enforma a mítica República dos Raianos , situando o livro no contexto da recuperação da memória histórica e semântica, indispensável à procura da realidade e aprofundamento do mito raiano .

O Encontro Cultural raiano prosseguiu após o lançamento do livro com uma visita guiada pelo Professor Estraviz a um conjunto espectacular de monumentos históricos, situado a cerca de 20 quilómetros a SE de Ourense em pequenos povoados, em Santa Marinha de Águas Santas
Em poucas dezenas de metros podiam observar-se antas ao lado de castros, e uma igreja inacabada construída sobre uma estação de banhos romanos em perfeito estado de conservação. Em toda a região paira o espírito e manifesta-se a fé numa Santa que mercê de vários milagres conseguiu escapar à perseguição romana e em cuja memória se ergue uma monumental igreja romano-gótica . É uma amostra do imenso património histórico espalhado um pouco por toda a zona raiana , que embora esquecido se encontra bem preservado. Enquanto espera melhores tempos para ser divulgado vai mantendo vivas as tradições e lendas que enformam a cultura popular da região.
Este encontro cultural foi possível pelo interesse de alguns castrejos e galegos na preservação e divulgação da sua cultura inserindo-a no processo em marcha de recuperação e defesa da paisagem cultural raiana a que O Pegureiro e o Lobo veio dar um contributo que os intervenientes consideraram como fundamental.
 


publicado por crastejo às 15:04
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O Pegureiro e o Lobo - Estórias de Castro Laboreiro, por Manuel Domingues
     
 
 
 
 O PEGUREIRO E O LOBO
 

Castro Laboreiro é o país da chuvia, do sol, do vento.
É tamén o país do granito, da neve, do desolado planalto, da carqueixa, do lameiro eternamente verde.
 o país da cultura popular. Un laboratorio etnográfico.
É o país dos traballos. Da emigración. So sacrificio. Das viúvas de vivos. Das ausencias. Dos azares e soños rotos.
É o país da saudade, do queixume, da esperanza, das ansias de plenitude.
É o país onde a historia se torna estória.
É, porfin, o principio do mundo: O MUNDO. É no principio do mundo que nace, en 1941, Manuel Domingues. A dura experiencia do traballo agro‑pastoril márcao profundamente. Comeza a estudar ciencias sociais, terminando os cursos en París como bolseiro do goberno francês. Foi talvez o primeiro crastexo residente en Franza, non sendo emigrante "strictu sensu". Cumpre o servizo militar en África, relatando en libro a terribel experiencia. Crea, por volta de 1960 a sección "Página de Castro Laboreiro" no jornal "Notícias de Melgaço". Profesor universitario, xestor e consultor de grandes empresas, chega a ser secretario xeral do ministerio de agricultura. Progresivamente, volta à súa (nosa) terra. Na actualidade, xunto con Américo Rodrigues, dirixe o Núcleo de Estudos e Pesquisa dos Montes Laboreiro, organizando as xa míticas xornadas e relatorios de investigación que se celebran todos os meses de Agosto na Vila de Castro. Editan a revista "Porto dos Cavaleiros".
"O Pegureiro e o Lobo" non é apenas un relato. É MITOLOXIA Co estilo e coa intencionalidade dos clásicos gregos, relata, por veces en primeira, por veces en terceira persoa o percurso vital do autor. Como Ulises na Odisea, e tamén como o capitán Willard de Apocalypse Now, a vida de Manuel Domingues é un espello onde se reflicten os secretos desejos, anceios, temores, esperanzas e mesmo as dúbidas da condición humana.
O marco é para nós, os arraianos, moi familiar. Cunha linguaxe directa e sinxela, nos fala das súas raíces personais, do duro traballo na terra, da forxa do seu carácter. Fálanos do seu enfado após a lectura dalgún artigo sobre os crastexos, cheo de preconceptos e menosprezo. Saberemos dos seus problemas para fundar un pequeno jornal sobre a súa (nosa) terra, e das promesas sagradas antes de iniciar o seu periplo estudiantil e militar. Coñeceremos París, e as lamentábeis condicións de vida dos emigrantes portugueses. Con el haberemos ir à Bretaña a Italia...
É porfin o relato da loita eterna dos homes coa vida, contra ese LOBO que tan totemicamente encarna os particulares e diabolicos fantasmas arraianos: A falta de espazo (mental) público, a non inscrición dos factos na historia, o arcaísmo posmoderno, o curtoplacismo, a pequenez, a improvisación, o horror vacui, a lentitude, a violencia oculta.... O MEDO.                          XULIO MEDELA                                                                                                                              ARRAIANOS             IV 2005
 
 
 
 


publicado por crastejo às 14:47
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Sábado, 29 de Abril de 2006
Apresentação

 

Olá!


envindo a este espaço destinado a castrejos e amigos de CBastro Laboreiro.
Além do cão, de que certamente já ouviu falar, em Castro Laboreiro desenvolveu-se durante séculos uma cultura agro pastoril de cariz comunitário, assente nomeadamente na partilha de equipamentos e bens comuns, como o forno, a eira, os baldios e a água, para consumo e rega, e na utilização mútua dos equipamentos individuais disponíveis, bem como na cedência dos próprios animais de trabalho. Ao mesmo tempo foram-se aperfeiçoando e consolidando as normas e princípios orientadores das relações entre vizinhos, que eram transmitidas oralmente de pais a filhos ao longo de gerações, permitindo determinar os comportamentos esperados de cada membro e resolver conflitos internos, protegendo o conjunto da intromissão de regras estranhas.
A subsistência económica assentava na exploração de um solo pobre cuja produção se reduzia a centeio e batatas, cultivados em barbeitos dispersos. Esta actividade era complementada com a criação de gando, e de rez que através da venda de crias proporcionava algum dinheiro, enquanto o leite reforçava a dieta
alimentar e a lã fornecia grande parte da matéria-prima para o vestuário.
Atendendo à escassez dos recursos gerados pela actividade agro-pastoril, competia aos homens angariar o resto do dinheiro necessário ao sustento da casa. A mulher, além da participação nas tarefas agrícolas, ao lado do marido, tratava da casa e dos animais e cuidava dos filhos cuja educação era também responsabilidade comunitária,
Durante muitos anos os crastejos partiram no final do Outono para outras regiões do Norte do País ou da vizinha Espanha, procurando amealhar algum dinheiro, donde regressavam no início da Primavera.
A situação viria a alterar-se radicalmente quando os dois conflitos responsáveis pela situação de crise, a guerra civil de Espanha e a 2ª grande guerra, terminaram. Com efeito a partir do final dos anos quarenta os crastejos iniciaram um processo de emigração maciça para França que em três décadas originou uma diminuição de 50 % da população e privou Castro Laboreiro da quase totalidade dos seus homens em idade activa.
De agricultores livres, vivendo pobremente, passaram a maçons com bons salários, habitando nos bidonvilles, em condições sub humanas.
Aos contingentes iniciais de chefes de família seguiram-se os filhos mais velhos e posteriormente os mais novos, obrigados a abandonarem a terra natal para continuarem os estudos noutras localidades do País. Como resultado do êxodo dos adultos as crianças viram-se privadas da convivência do pai e a sua participação na economia da casa passou a ser indispensável desde tenra idade.
Com o decorrer do tempo e a melhoria das condições de vida, os valores fundamentais que suportaram a sociedade crasteja e os princípios em que assentava a formação do carácter dos jovens caíram em desuso, fazendo ruir os seus alicerces, enquanto a aculturação generalizada das novas gerações provocava conflitos e situações de desenraizamento. A solidariedade nos momentos difíceis foi substituída pelo exacerbar do individualismo e os elementos fundamentais de uma cultura centenária votados ao ostracismo, pelo abandono das actividades a que estiveram ligados e pelo desinteresse geral.
O êxito na luta pela melhoria das condições de vida, provocou uma situação de quase desaparecimento da cultura que impulsionou essa mesma conquista de bem-estar.
O objectivo final deste espaço é dar a conhecer uma cultura responsável pela formação do carácter franco, lutador, independente e solidário dos crastejos, evitando que seja lançada no precipício do esquecimento e na ingratidão dos homens ou reduzida a um simples monte de vestígios exóticos para turista ver, esmagado pelos símbolos arrivistas da “cultura” trolha, e transformada numa espécie de reserva cultural índia do século XXI».
O signatário, crastejo, pretende debater o problema do desaparecimento de uma comunidade serrana que nos últimos 40 anos perdeu mais de 60% dos eus efectivos e cuja cultura multissecular se encontra à beira do desaparecimento.


Bem vindo ao debate.

Manuel Domingues

 


publicado por crastejo às 10:32
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